ENQUANTO O LEÃO RUGE, O TEMPO URGE PARA OS DEPENDENTES QUÍMICOS

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Certa vez, assisti a um vídeo que mostrava um leão dentro de sua jaula junto com o seu cuidador. Ao oferecer o alimento, o homem foi surpreendido com um ataque de fúria do animal.

O felino abocanhou fortemente seu braço e o arrastou para o fundo da jaula, mantendo seu próprio cuidador como refém, ferindo-o bastante com suas presas.

O veterinário do local chegou em caráter de urgência e não encontrou outra forma de libertar o homem, a não ser injetando de longe um calmante no leão…  Foi então que o leão adormeceu imediatamente, e o homem foi libertado.

Mas, quais seriam os motivos que levaram o animal atacar o seu próprio cuidador?

Talvez por se sentir demasiadamente preso em um espaço tão pequeno, ou por estar extremamente solitário sem nenhum convívio com outros animais. Pode ser também porque sentia uma fome “monstruosa”, quem sabe por estresse ou por inúmeros motivos os quais desconheço.

Mas, esta resposta eu nunca terei.

Tomo a liberdade agora em associar o comportamento do felino com o comportamento do dependente químico, usuário abusivo e ativo nas drogas, como também um paralelo com o avanço das cracolândias  que, a cada dia, se alastram mais pelo Brasil e pelo mundo.

Quando o dependente chega à fase onde não consegue mais viver sem as drogas, tanto física como emocionalmente e, ainda, com sua própria dignidade perdida, é comum agredir de inúmeras formas as pessoas próximas, lesando-as de alguma forma. Busca meios de conseguir, ainda que ilicitamente e com os seus “ataques de fúrias”, as substâncias psicoativas das quais depende.  Mentem, manipulam, furtam, agridem para sustentar e manter sua dependência.

As agressões iniciam-se em si próprio, quando compromete  sua própria saúde em primeiro lugar. Não se trata bem e nem se importa mais com suas necessidades básicas no dia a dia, ou seja, alimentação, higiene e até necessidades fisiológicas, todas estas necessárias e imprescindíveis para a dignidade humana. Muitas vezes tira a roupa do próprio corpo para trocá-la por drogas, ou então vendem aparelhos pessoais como celular, som, etc…

Por várias vezes escuto em meu consultório depoimentos de dependentes químicos que trocam seus casacos por uma pequena quantidade de droga em pleno inverno, não se importando nem com o frio que podem sentir. O foco principal é a obtenção de drogas e ponto final.

E assim que perdem esta alternativa. ou seja, quando terminam com todo o seu estoque de objetos de trocas e/ou vendas, passam a roubar a própria família ou ainda, assaltar pessoas nas ruas ou invadir casas.

Sabendo-se presos e escravos das drogas, e sem coragem de abandoná-las, costumam tomar como reféns esses mesmos familiares! Reféns de si e de suas adicções ativas, principalmente quando sentem, assim como o leão, uma “fome monstruosa” em relação às drogas (a fissura), ou quando sofrem a dor da síndrome de abstinência.

São pessoas que sofrem de uma doença devastadora e muito séria, e que precisam urgentemente de ajuda e tratamento.

MAS, O QUE FAZER?

Como ajudá-las se as próprias não aceitam?

Como podemos também nos proteger de seus “ataques de fúria”?

Prendê-los dentro de uma jaula como animais, igual ao leão do início deste artigo, não é recomendável, muito menos prender seus filhos em corrente, como vemos algumas mães o fazendo.

Injetar de longe um calmante para paralisá-lo?

NÃO, NÃO… NÃO É POR AÍ!

Nós, profissionais da área da saúde, seja dentro de um consultório ou através de ações sociais e  juntamente com grupos de mútua-ajuda, procuramos levá-los a uma tomada de consciência de que não são animais e que podem readquirir suas vontades próprias e optarem por escolhas melhores, mudando comportamentos, hábitos, caminhando de um jeito novo, manso, “limpo” e sereno, com a possibilidade real de resgatarem suas vidas,  conquistando e reconquistando novos amigos, família, emprego e principalmente a maior preciosidade que possuem: a dignidade humana.

Costumo dizer que precisamos agir muito rápido, tanto na prevenção como na conscientização e no resgate dessas pessoas totalmente consumidas pelas drogas, antes que virem “farrapos humanos” e percam suas almas.

No episódio que relatei e até onde sei, o leão não morreu, foi apenas paralisado.

Mas posso dizer, com toda certeza e propriedade, que os dependentes químicos que ainda consomem ativamente as drogas e ao mesmo tempo estão sendo  consumidos por elas, podem ter um fim bem diferente, e talvez até  pior que o animal, se não optarem urgentemente por suas recuperações.

É… ENQUANTO O LEÃO RUGE, O TEMPO URGE PARA OS DEPENDENTES QUÍMICOS E O PODER PÚBLICO FINGE QUE NÃO VÊ!

Sobrevivendo em condições sub-humanas e perdidos em alguma “cracolândia” dessas por aí; infelizmente os adictos estão sendo esquecidos pelo poder público que optam e insistem em um processo de “higienização” dos centros urbanos, levando todo um aparato policial para retirá-los do local de maior concentração, ao invés de criar estruturas físicas e adequadas com uma equipe multidisciplinar de profissionais da saúde para tratá-los com dignidade e respeito

Existem algumas Ong’s, Paróquias e Prefeituras que ajudam, defendem e conscientizam estas pessoas com um trabalho estruturado e efetivo, conseguindo cuidar e tratar os dependentes químicos levando-os ao caminho da recuperação. Mas, até onde sei ainda é pouco tendo em vista a imensidão do nosso Brasil.

A DEPENDÊNCIA QUÍMICA NÃO É UM PROBLEMA DE POLÍCIA E SIM DE SAÚDE PÚBLICA!

Marília Teixeira Martins

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Olá! Sou Marília Teixeira Martins, psicóloga clínica há 36 anos. Atendo adolescentes e adultos em meu consultório em Belo Horizonte de forma presencial e, a convite da Plataforma da Psicologia Viva, realizo atendimento online, devidamente autorizado pelo Conselho Federal de Psicologia. Acredito que cada um de nós, em seu processo de crescimento e busca interior, é capaz de desenvolver todo o seu potencial na resolução de problemas e dificuldades que a vida nos apresenta. Assumir a responsabilidade por nossa própria evolução nos colocando como o primeiro e único responsável por nossas atitudes, escolhas, sentimentos e por nossa própria vida é trabalhoso, mas com certeza nos leva a uma compreensão maior e mais fiel de como nos relacionamos conosco e com os outros. Como profissional da área de saúde entendo que o meu papel e dever em relação às pessoas que me procuram é motivá-las e direcioná-las ao seu autoconhecimento e amadurecimento de forma responsável, incentivando-as a buscar o comprometimento com sua própria evolução e crescimento emocional, condição “sine qua non” para uma vida harmoniosa e serena. Durante longos anos trabalhei em Comunidades Terapêuticas abordando o difícil mal da humanidade: a dependência de álcool e outras drogas. Em consultório, trabalho com os próprios dependentes químicos (adictos) desde sua rendição e pedido de ajuda, passando por todo o processo efetivo de recuperação e pela constante sombra da recaída… Até sua libertação dos químicos. Como uma criança que nasce e passa por vários estágios até seu completo caminhar, o dependente químico que quer vencer alcança sua sobriedade e recuperação. Resgata a dignidade perdida em função de uma doença tão devastadora, deixando de ser o “escolhido”, abraçando com muita dignidade e garra sua liberdade em “escolher”. Conheço de perto a luta que enfrentam. Portanto, a todos que optaram por sua sobriedade e recuperação e àqueles que ainda não optaram, mas estão a caminho, recebam o meu profundo respeito e admiração. Atendo também familiares de dependentes químicos que costumam não saber lidar com a adicção de seu afeto e, por isso, apresentam comportamentos disfuncionais e adoecidos. Falar sobre este tema exige cautela. Por outro lado, tornou-se um desafio em minha vida. Costumo dizer que eu não o escolhi, o tema me escolheu. Mas, por que e para quê? Confesso que durante muito tempo busquei respostas para esta indagação pessoal e, por mais incrível que possa parecer, ainda não as encontrei. Resolvi então me entregar ao “chamado” e agir. Um desafio, um sonho, uma realidade. Através de minhas experiências profissionais publiquei um livro dirigido principalmente àqueles que buscam ou navegam em direção à libertação das drogas, reinventando suas histórias e resgatando suas próprias vidas. Escrevê-lo foi mais do que um simples ensaio. Foi um exercício poético de liberdade e um convite à reflexão e à ação. Escrevi ainda um segundo livro, ainda não publicado, devido às inúmeras atividades profissionais por mim abraçadas, mas que vocês terão a oportunidade de conhecê-las através deste blog. Quem sabe juntos conseguiremos alcançar aqueles que tanto precisam de ajuda? Além de atuar em diversos diagnósticos clínicos, dou supervisão clínica para psicólogos, auxiliando-os na condução de seus atendimentos. Ministro palestras em grupos de mútua-ajuda como Alcoólicos Anônimos (A.A.), Al-lanon (para familiares de dependentes químicos), em escolas de ensino fundamental e médio, trabalhando com os alunos principalmente a prevenção da doença. É um prazer recebê-los. Vocês são os meus convidados. Podem entrar, a casa é nossa! Marília Teixeira Martins Psicóloga Clínica

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