A RECAÍDA E OS TOMBOS DA VIDA

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Certa vez ao descer apressada na rua em que moro, na chuva, pisei em falso e caí. O resultado deste tombo, além de eu ver várias estrelinhas ao meu redor, foi uma fratura no pulso esquerdo.

Chorando de dor e a caminho do hospital repetia a todo instante que isto não poderia ter acontecido comigo. E ainda, humana que sou, culpava o passeio, o mau tempo e, principalmente Deus pelo ocorrido, recitando o famoso “mantra do “por que?”

Assim que voltei a minha serenidade resolvi parar de tantos “por quês” e partir para o “pra quê?”.

Entendi que é muito mais fácil delegarmos nossas responsabilidades em forma de culpa às coisas e aos outros, ainda que este outro seja o nosso Amoroso Deus.

Correr riscos assumindo nossos erros é, de fato, muito difícil, mas é assim que deve ser feito. Eu não precisava ter saído debaixo da chuva correndo, sendo que eu tinha tempo suficiente para chegar ao meu destino. Se caí foi por imprudência minha e por ela paguei um alto preço de ter o pulso fraturado, engessado e imobilizado, precisando submeter-me aos cuidados de outras pessoas para várias atividades do meu dia a dia.  Meu orgulho naquele momento se impunha.

– “Não, minha filha…assim dizia-me Deus, não utilize esta palavra “submeter-se”. Utilize a expressão “Receber Ajuda”. Receber ajuda é receber o mesmo que você dá a muitos todos os dias. Procure trabalhar a aceitação, a humildade e a mansidão.”

Esta reflexão cabe muito bem aos adictos quando recaídos. Assim como eu cometi uma imprudência, muitos deles quando pisam em falso na recuperação costumam culpar algo ou alguém pelo tombo, não assumindo a responsabilidade pelo próprio descuido.

Exemplos: “Recaí por causa do término do meu relacionamento com a namorada ou esposa” ou “Recaí por não suportar as cobranças dos meus pais.”, etc.

A recaída nada mais é do que pisar em falso no tratamento e na programação, se expondo a riscos, indo a lugares que não deveria frequentar, acompanhar “amigos” que não deveria acompanhar ou se achando demasiadamente forte para ausentar-se dos grupos de mútua-ajuda, da psicoterapia e, se for o caso, do tratamento medicamentoso.

E assim como paguei um preço por minha imprudência correndo na chuva sem necessidade, os adictos quando recaem também pagam um alto preço, interrompendo suas caminhadas até então sóbrias, entregando-se sem a devida atenção ao “mau tempo” e se expondo aos raios e trovões de sua doença.

Mesmo assim, apesar do tombo, na maioria das vezes amargo, é possível retomarem suas recuperações desde que se disponham a trabalhar a aceitação, a humildade, a mansidão e, principalmente, que saibam pedir ajuda na hora certa antes de se lançarem ao uso dos químicos.

No meu caso, caí, levantei-me, chorei, esperneei, acusei, reconheci, aceitei, entreguei e sigo até hoje caminhando com mais cautela, humildade e serenidade.  Agora, de uma coisa tenho certeza: Se aparecerem “pedras” em minha caminhada, farei delas não minhas inimigas e sim minhas aliadas a favor da minha renovação diária.

Durante meu restabelecimento, lembrei-me de uma parábola, sem referência de autoria, que recebi certa vez por e-mail.

Tal parábola contava a história de um animal que caiu em um poço fundo e não conseguia sair dali sozinho. Seu dono, não enxergando a possibilidade em ajudá-lo e tendo em vista a idade avançada que o animal se encontrava, tomou a cruel decisão de enterrá-lo ainda vivo, já que também se livraria do poço que há muito tempo estava seco e não lhe servia mais. E assim, resolveu jogar terra naquele buraco “inútil” por cima do bicho.

O animal gritava muito no início do processo como se entendesse o que estava para acontecer a ele. Mas, depois de um certo tempo, para espanto de todos que ali estavam, se acalmou. Seu dono então, ao olhar para o fundo do poço se surpreendeu: a cada pá de terra que ele jogava no buraco por cima do animal, deixava o poço cada vez mais raso, servindo de base para que o bicho ficasse mais próximo da superfície, conseguindo assim sair dali.

Costumo trazer estas duas reflexões para meus atendimentos no consultório com meus pacientes adictos e não adictos, dia após dia. Precisei vivenciá-las para praticá-las.

E a você adicto, deixo uma mensagem:  você é portador de uma doença muito séria que precisa ser estacionada a qualquer custo a favor de sua própria vida. Portanto, se por acaso você cair em algum buraco ou lugar escuro, erga sua cabeça, olhe para cima, levante suas mãos e busque ajuda. E não se assuste se encontrar mãos estendidas e pessoas prontas para te acolher, esperando apenas por um gesto seu.

Então…crie coragem, tome impulso e venha para a luz!

Marília Teixeira Martins

Psicóloga Clínica

 

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Olá! Sou Marília Teixeira Martins, psicóloga clínica há 36 anos. Atendo adolescentes e adultos em meu consultório em Belo Horizonte de forma presencial e, a convite da Plataforma da Psicologia Viva, realizo atendimento online, devidamente autorizado pelo Conselho Federal de Psicologia. Acredito que cada um de nós, em seu processo de crescimento e busca interior, é capaz de desenvolver todo o seu potencial na resolução de problemas e dificuldades que a vida nos apresenta. Assumir a responsabilidade por nossa própria evolução nos colocando como o primeiro e único responsável por nossas atitudes, escolhas, sentimentos e por nossa própria vida é trabalhoso, mas com certeza nos leva a uma compreensão maior e mais fiel de como nos relacionamos conosco e com os outros. Como profissional da área de saúde entendo que o meu papel e dever em relação às pessoas que me procuram é motivá-las e direcioná-las ao seu autoconhecimento e amadurecimento de forma responsável, incentivando-as a buscar o comprometimento com sua própria evolução e crescimento emocional, condição “sine qua non” para uma vida harmoniosa e serena. Durante longos anos trabalhei em Comunidades Terapêuticas abordando o difícil mal da humanidade: a dependência de álcool e outras drogas. Em consultório, trabalho com os próprios dependentes químicos (adictos) desde sua rendição e pedido de ajuda, passando por todo o processo efetivo de recuperação e pela constante sombra da recaída… Até sua libertação dos químicos. Como uma criança que nasce e passa por vários estágios até seu completo caminhar, o dependente químico que quer vencer alcança sua sobriedade e recuperação. Resgata a dignidade perdida em função de uma doença tão devastadora, deixando de ser o “escolhido”, abraçando com muita dignidade e garra sua liberdade em “escolher”. Conheço de perto a luta que enfrentam. Portanto, a todos que optaram por sua sobriedade e recuperação e àqueles que ainda não optaram, mas estão a caminho, recebam o meu profundo respeito e admiração. Atendo também familiares de dependentes químicos que costumam não saber lidar com a adicção de seu afeto e, por isso, apresentam comportamentos disfuncionais e adoecidos. Falar sobre este tema exige cautela. Por outro lado, tornou-se um desafio em minha vida. Costumo dizer que eu não o escolhi, o tema me escolheu. Mas, por que e para quê? Confesso que durante muito tempo busquei respostas para esta indagação pessoal e, por mais incrível que possa parecer, ainda não as encontrei. Resolvi então me entregar ao “chamado” e agir. Um desafio, um sonho, uma realidade. Através de minhas experiências profissionais publiquei um livro dirigido principalmente àqueles que buscam ou navegam em direção à libertação das drogas, reinventando suas histórias e resgatando suas próprias vidas. Escrevê-lo foi mais do que um simples ensaio. Foi um exercício poético de liberdade e um convite à reflexão e à ação. Escrevi ainda um segundo livro, ainda não publicado, devido às inúmeras atividades profissionais por mim abraçadas, mas que vocês terão a oportunidade de conhecê-las através deste blog. Quem sabe juntos conseguiremos alcançar aqueles que tanto precisam de ajuda? Além de atuar em diversos diagnósticos clínicos, dou supervisão clínica para psicólogos, auxiliando-os na condução de seus atendimentos. Ministro palestras em grupos de mútua-ajuda como Alcoólicos Anônimos (A.A.), Al-lanon (para familiares de dependentes químicos), em escolas de ensino fundamental e médio, trabalhando com os alunos principalmente a prevenção da doença. É um prazer recebê-los. Vocês são os meus convidados. Podem entrar, a casa é nossa! Marília Teixeira Martins Psicóloga Clínica

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