DEPRESSÃO

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Sad man holding head with hand

Muitas pessoas que chegam ao meu consultório em busca de ajuda, trazem consigo uma tristeza profunda. Chegam frágeis, abatidas, exaustas de lutarem, às vezes contra si mesmas, sem obterem grandes resultados de melhora.  Buscam resposta, buscam compreensão, buscam alívio para o que estão vivendo e sentindo.

São pessoas que sofrem de depressão. Uma doença muito antiga, mas que tem se tornado muito presente em nosso meio.

Muitos de nós, se não passamos por esta experiência pessoal, estamos tendo que conviver com a depressão, direta ou indiretamente, e de forma muito próxima, seja através de amigos, parentes, ou até mesmo dentro de nossa própria casa. Enfim, a depressão hoje em dia, de alguma forma, faz parte de nossas vidas.

Sad business man sit in hotel room

ALGUNS SINTOMAS

Depressão é uma experiência de intensa de queda e dor emocional que mobiliza os sentimentos mais primitivos, afetando as áreas física, emocional e espiritual.

A pessoa sente uma tristeza profunda, a qual, diferentemente de uma tristeza normal, não passa com estímulos externos.

Tristeza é um fenômeno normal que faz parte da vida de todos nós. Já a depressão é um estado doentio.

Existem diferenças bem marcantes entre uma e outra. A tristeza tem duração limitada, enquanto a depressão costuma afetar a pessoa por um período bem maior, igual ou superior a 15 dias. Podemos estar tristes porque alguma coisa negativa ou de ruim nos aconteceu, mas isso não nos impede de reagir com alegria, se algum estímulo agradável surgir.

Na depressão não acontece assim. Os estímulos que chegam não alteram em nada o humor. Além disso, a depressão provoca sintomas como desânimo e falta de interesse por qualquer atividade.

A pessoa deprimida sente-se incapaz, desinteressada pelas coisas, com sua energia vital diminuída. Os sentimentos são tantos e tão confusos que às vezes sente-se “anestesiada”, como se não tivesse sentimentos.

A tristeza é intensa, o choro fácil e frequente, e em alguns casos, irritação com pequenos problemas e vontade de abandonar tudo e todos. Tudo perde a importância, a cor. Perde-se o sentido de viver.

Com a autoestima bem diminuída, é frequente a presença de sentimentos de derrota, de pouco valor de si mesmo, que terminam gerando pensamentos de culpa, fracasso e às vezes até de morte.

Diminuição do gosto, diminuição da satisfação, diminuição do prazer, são comuns e até o lazer, os amigos, o sexo, tudo perde a graça.

As atividades do dia a dia antes feitas naturalmente, como tomar banho, vestir-se, cuidar de suas coisas, dar conta dos compromissos, também ficam comprometidas e agora são feitas, quando feitas, com um enorme esforço.

A pessoa fica desleixada. Tudo perde a importância. Geralmente, prefere o isolamento, um lugar quieto no qual possa ficar só com suas tristezas. O pensamento fica confuso, pois os sentimentos estão exacerbados e o pessimismo é constante.

A pessoa tem consciência do seu sofrimento e do sofrimento que causa; e mesmo assim, não consegue encontrar um motivo que justifique essa tempestade emocional. Nem tampouco encontra forças e ânimo para sair desse estado.

Existe ainda a dificuldade de concentração, atenção, fixação e de memória. Alterações de peso são comuns. Com o apetite alterado, come-se muito, sem disciplina, com ansiedade, ou então não sente fome e se alimenta muito pouco.

Ocorrem frequentemente alterações do sono, dormindo muito, mas um sono que não é repousante, ou apresenta diferentes tipos de insônia, como dificuldade para dormir, sono interrompido ou acordar cedo demais.

Fadiga e cansaço são sintomas também muito presentes e marcantes. Algumas pessoas ainda desenvolvem dentro do quadro depressivo a tão conhecida síndrome do pânico, sobre a qual vou comentar separadamente em outro momento ou artigo.

Espiritualmente falando, muitos deprimidos queixam-se de uma fé extremamente abalada e muitos deles acreditam que a depressão seria um castigo ou abandono de Deus. Nada disso. Deus não abandona e nem castiga ninguém. O que acontece, é que a própria pessoa, por inúmeros motivos, ao longo da vida, se abandona e se castiga, enfim, fica frágil do ponto de vista espiritual e com isso mais suscetível à depressão. E a manifestação ou sinalização desse auto-abandono pode ser o desenvolvimento da própria depressão.

FATORES QUE CONTRIBUEM PARA A MANIFESTAÇÃO E INSTALAÇÃO DA DEPRESSÃO

Múltiplos são os fatores desencadeantes e vou tentar abordar os principais.

Do ponto de vista psicológico, podemos considerar perdas ou mortes de entes queridos; separações de modo geral, seja por término de relações afetivas, casamento ou afastamentos; pressões sociais, frustrações mal elaboradas e rejeições de modo geral; perdas materiais ou financeiras; ressentimentos, que são sentimentos não resolvidos que viram rancor ou mágoas, entrando aqui também as decepções; timidez em demasia, imaturidade, insegurança pessoal e autoestima baixa. Tudo isso leva as pessoas a serem mais susceptíveis a quadros depressivos.

Do ponto de vista médico, a depressão se manifesta por vários motivos, dentre eles: dependências químicas de uma maneira geral; heranças genéticas; alguns tipos de cardiopatias ou problemas com a tireoide. Passam a existir deficiências de determinadas substâncias químicas do cérebro (serotonina, dopamina ou noradrenalina), que são os chamados neurotransmissores, responsáveis pela comunicação entre as células nervosas ou neurônios. Portanto, um desequilíbrio bioquímico dos neurônios (células nervosas) responsáveis pelo controle do estado de humor.  E quando a pessoa está em um quadro depressivo, esses neurotransmissores estão em desequilíbrio, ou seja, em uma quantidade muito inferior ao normal, acarretando aí uma série de manifestações psicológicas, comportamentais, espirituais etc.

Portanto, em vista de todo esse quadro, pode-se constatar que depressão é doença séria e que precisa de tratamento, e podemos dizer ainda mais que:

NÃO É O INDIVÍDUO INCAPAZ QUE TEM DEPRESSÃO, MAS A DEPRESSÃO QUE INCAPACITA O INDIVÍDUO.

QUAL É O TRATAMENTO MAIS ADEQUADO?

Para um tratamento eficaz, é necessário buscar um reequilíbrio físico, emocional e espiritual, já que a depressão atinge todas essas áreas.

A psicologia trabalha ao lado do cliente, acompanhando-o em sua busca pessoal. Procura facilitar o processo de autoconhecimento. Em um processo psicoterápico, o cliente amplia sua percepção e trabalha o respeito de si próprio, aumentando assim sua autoconfiança e capacidade de se orientar criativamente em seu meio, na busca de seu equilíbrio.

A psicoterapia é essencial, tendo em vista à distorção que a depressão provoca na visão do mundo e da própria pessoa.

O mundo do deprimido torna-se sem cor ou, no máximo, preto e branco. Como se ele não percebesse o colorido da vida.

As pessoas em um quadro depressivo se sentem sem valor, culpando-se em demasia, sentindo-se fracassadas, incapazes de tomar decisões corriqueiras, enfim “bagunçadas” e com as emoções confusas.

Por ser uma doença também orgânica, com uma disfunção neuroquímica, o tratamento médico se faz necessário e de preferência feito com um psiquiatra, que é o especialista em quadros depressivos. Ele pode avaliar o grau da depressão (leve, moderada ou grave) e se necessita de medicamentos (os antidepressivos) que atuem através da reposição da(s) substância(s) que estão em desequilíbrio no cérebro.

O terceiro movimento que eu considero de extrema importância para o tratamento completo da depressão, é a busca de uma prática espiritual, pois é sabido até mesmo em pesquisas científicas, que pessoas que desenvolvem sua espiritualidade e a praticam, são menos vulneráveis a um quadro depressivo. E o pensamento às vezes constante de morte perde a sua força, quando a pessoa tem fé em algo maior do que elas próprias.

FAMÍLIA

Dependendo do grau de depressão, a família também necessita e deve ser orientada e informada em relação à doença, como também em como lidar com o “seu” deprimido. Partilhar e entender esta experiência de dor não é fácil e não depende só de boa vontade.

Geralmente a família também se desestrutura. Por isso a orientação por parte do profissional é muito importante. Todos precisam saber o que está sendo feito, que riscos correm os doentes, os benefícios do tratamento e o prognóstico de longo prazo. Acima de tudo, é preciso lidar com o medo.

Por incrível que pareça, hoje em dia, em pleno século 21, os doentes e suas famílias têm medo da doença mental, da loucura. E até hoje, psiquiatras e psicólogos infelizmente ainda são vistos por muitos, como médicos que cuidam de “loucos”. Escuto muito isso em meu consultório, e por isso cabe a nós, profissionais, prestar esclarecimentos a essas pessoas sobre essa falsa crença.

Geralmente, orienta-se o doente e há alguns casos em que é preciso orientar também sua família a não tomar nenhuma decisão importante ou definitiva enquanto existir a crise. Sugere-se a esses familiares que forneçam parâmetros da realidade para essa pessoa, como, por exemplo, não a deixando isolada e trancada por muito tempo, nem permitindo que ela desrespeite regras básicas de alimentação e higiene. A pessoa precisa ser estimulada, de acordo com suas possibilidades de desempenho, o que não significa expô-la a eventos sociais ou de lazer, caso ela não queira.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nós humanos somos corpo, alma e espírito. E todos estes aspectos ou estas áreas que funcionam de forma integrada, precisam ser cuidadas e, se doentes, devidamente tratadas. E a depressão, assim como qualquer outra doença, precisa ser tratada como tal. Corre-se o risco de, se não tratada, chegar a um ponto  em que a doença  passa a escolher e dirigir a vida da pessoa, tirando o que ela tem de mais precioso que é a liberdade de escolha e  a própria vida.

Marília Teixeira Martins

 

 

 

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Olá! Sou Marília Teixeira Martins, psicóloga clínica há 36 anos. Atendo adolescentes e adultos em meu consultório em Belo Horizonte de forma presencial e, a convite da Plataforma da Psicologia Viva, realizo atendimento online, devidamente autorizado pelo Conselho Federal de Psicologia. Acredito que cada um de nós, em seu processo de crescimento e busca interior, é capaz de desenvolver todo o seu potencial na resolução de problemas e dificuldades que a vida nos apresenta. Assumir a responsabilidade por nossa própria evolução nos colocando como o primeiro e único responsável por nossas atitudes, escolhas, sentimentos e por nossa própria vida é trabalhoso, mas com certeza nos leva a uma compreensão maior e mais fiel de como nos relacionamos conosco e com os outros. Como profissional da área de saúde entendo que o meu papel e dever em relação às pessoas que me procuram é motivá-las e direcioná-las ao seu autoconhecimento e amadurecimento de forma responsável, incentivando-as a buscar o comprometimento com sua própria evolução e crescimento emocional, condição “sine qua non” para uma vida harmoniosa e serena. Durante longos anos trabalhei em Comunidades Terapêuticas abordando o difícil mal da humanidade: a dependência de álcool e outras drogas. Em consultório, trabalho com os próprios dependentes químicos (adictos) desde sua rendição e pedido de ajuda, passando por todo o processo efetivo de recuperação e pela constante sombra da recaída… Até sua libertação dos químicos. Como uma criança que nasce e passa por vários estágios até seu completo caminhar, o dependente químico que quer vencer alcança sua sobriedade e recuperação. Resgata a dignidade perdida em função de uma doença tão devastadora, deixando de ser o “escolhido”, abraçando com muita dignidade e garra sua liberdade em “escolher”. Conheço de perto a luta que enfrentam. Portanto, a todos que optaram por sua sobriedade e recuperação e àqueles que ainda não optaram, mas estão a caminho, recebam o meu profundo respeito e admiração. Atendo também familiares de dependentes químicos que costumam não saber lidar com a adicção de seu afeto e, por isso, apresentam comportamentos disfuncionais e adoecidos. Falar sobre este tema exige cautela. Por outro lado, tornou-se um desafio em minha vida. Costumo dizer que eu não o escolhi, o tema me escolheu. Mas, por que e para quê? Confesso que durante muito tempo busquei respostas para esta indagação pessoal e, por mais incrível que possa parecer, ainda não as encontrei. Resolvi então me entregar ao “chamado” e agir. Um desafio, um sonho, uma realidade. Através de minhas experiências profissionais publiquei um livro dirigido principalmente àqueles que buscam ou navegam em direção à libertação das drogas, reinventando suas histórias e resgatando suas próprias vidas. Escrevê-lo foi mais do que um simples ensaio. Foi um exercício poético de liberdade e um convite à reflexão e à ação. Escrevi ainda um segundo livro, ainda não publicado, devido às inúmeras atividades profissionais por mim abraçadas, mas que vocês terão a oportunidade de conhecê-las através deste blog. Quem sabe juntos conseguiremos alcançar aqueles que tanto precisam de ajuda? Além de atuar em diversos diagnósticos clínicos, dou supervisão clínica para psicólogos, auxiliando-os na condução de seus atendimentos. Ministro palestras em grupos de mútua-ajuda como Alcoólicos Anônimos (A.A.), Al-lanon (para familiares de dependentes químicos), em escolas de ensino fundamental e médio, trabalhando com os alunos principalmente a prevenção da doença. É um prazer recebê-los. Vocês são os meus convidados. Podem entrar, a casa é nossa! Marília Teixeira Martins Psicóloga Clínica

2 COMMENTS

    • Obrigada, Valdir! Meu trabalho só faz sentido quando pessoas como você estão com o coração abertos para recebê-lo.

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