ENTENDENDO A RECAÍDA NA DEPENDÊNCIA QUÍMICA

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ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

Recaída ou recidiva em dependência química é voltar a usar a droga, depois de um período de abstinência já na fase da recuperação. Mas é bom ressaltar que é um processo, que compreende várias fases e a reutilização das drogas é a última etapa desse processo.

Portanto, recaída não se resume apenas ao ato de beber ou se drogar. É também uma baixa emocional; e essa baixa, se não for devidamente cuidada, leva o dependente ao ato de drogar-se propriamente dito.

Quando o dependente ainda estava “ativo”, qualquer sentimento que experimentava ou vivia, era motivo para usar a droga. Se estava alegre, drogava-se para comemorar. Se triste, para se alegrar. Sentindo raiva, usava para se controlar; culpa e vergonha, para esquecer. Ele dificilmente sabia lidar com seus sentimentos de forma natural. Por isso os experimentava através das drogas. Elas “resolviam” por ele, e de uma forma muito precisa e imediata. De fato, o aliviavam.  Porém esse alívio era ilusório e assim que o efeito das mesmas passava, as dificuldades e os desconfortos retornavam normalmente acompanhados de mais problemas.

A partir do momento em que se propôs a se tratar, a se abster-se do químico e entrar em um processo de recuperação, deu-se início a várias mudanças de comportamentos e hábitos, como também a uma aproximação de sua intimidade e conhecimento maiores de seus sentimentos, durante muito tempo “abafados”, socados e às vezes até “anestesiados” pelas drogas.

Sabemos que o processo de recuperação acontece em três etapas ou momentos, quase sempre nesta ordem: primeiro, adquire-se um reequilíbrio físico, que inclui desintoxicação e cuidados com a abstinência. Após esse momento, o dependente químico conquista uma melhora na sua qualidade de vida. Aproxima-se de sua espiritualidade, buscando ajuda em uma Força ou Poder Maior para conseguir manter sua abstinência e sobriedade. Algumas pessoas encontram este Poder Maior, optando por seguir uma religião. Outras, buscam um Poder Superior a si mesmas, da forma que o concebem, como o programa dos doze passos sugere e indica.

Alcançando e vivenciando estas etapas, ou seja, equilibrado fisicamente, sentindo-se melhor em sua qualidade de vida e espiritualmente acolhido, passa então para o terceiro momento, que é a busca do seu equilíbrio emocional ou serenidade. Serenidade é “estar bem” com as coisas não resolvidas ou “estar bem, apesar de…”. E agora, o momento é delicado, pois ele vai aprender a lidar com todos os seus sentimentos de uma forma bem diferente do que até então estava acostumado. Agora, não tem mais o químico para se apoiar ou para abafar o que tem dificuldade em sentir e lidar. Agora ele está sóbrio.

Por isso é necessário um acompanhamento profissional após o início da recuperação, e a freqüência assídua aos grupos de ajuda-mútua, nos quais ele pode partilhar toda a sua “inabilidade” na manifestação dos seus sentimentos.

É preciso falar, é preciso dividir, é preciso colocar todas as emoções para fora de forma autêntica, não se preocupando se estas estão certas ou erradas. Aliás, não existem sentimentos certos ou errados. Existem sentimentos apenas e eles não estão classificados em uma categoria de valores.

Falar e ser ouvido e sentir-se compreendido o ajuda a se organizar emocionalmente com mais facilidade, aprendendo, principalmente a ouvir, condição essencial para uma boa recuperação. E quando confidencia ao outro os seus sentimentos, é o primeiro a ouvir-se e assim aprende a lidar  com os mesmos de uma forma mais adequada e saudável. Já não precisa mais utilizar as drogas para responderem ou agirem por ele.

Já no processo de recaída, esses três momentos acontecem de forma inversa. Ou seja: se antes, no processo de recuperação, o começo de tudo era a melhora física, passando pela qualidade de vida e espiritual e finalmente pela busca de uma melhora emocional, no processo de recaída o inicio se dá primeiramente no aspecto emocional. O dependente, não quer mais compartilhar ou dividir, isola-se, sente-se irritado com facilidade, solitário ou triste. Alguns demonstram arrogância, euforia e uma autoconfiança exacerbada.

Depois disso, sua qualidade de vida cai. Já não se veste de forma cuidadosa como antes, sua alimentação e sono ficam irregulares e sem disciplina. A freqüência aos grupos de mútua-ajuda diminui, começa a desmarcar as sessões de psicoterapia, e se tem alguma religião, já não a segue como antes.

Começa a ter problemas de relacionamento em casa, com os novos amigos de recuperação, às vezes até no trabalho. Fecha-se para os outros, afastando-se, não escutando ninguém e às vezes, com um intenso sentimento de autopiedade.

ENFIM, PASSA A PENSAR E AGIR DE FORMA NOVAMENTE INADEQUADA E DOENTIA.

Alguns até acreditam e cultivam a ideia de que têm controle sobre as drogas podendo usá-las de forma equilibrada e saudável. Entram em um estado de pré-contemplação em relação às drogas, onde somente alimentam lembranças positivas em relação às mesmas.

Costuma voltar a frequentar bares ou ambientes de risco, mesmo sem beber ou se drogar, apenas para conviver com os amigos de ativa, sentindo-se confiante e corajoso demais para quem está em tratamento e recuperação. Vive o que os Alcoólicos Anônimos chamam de “porre seco”.

Emocionalmente recaído, e com a qualidade de vida e espiritualidade abaladas, passa então para a terceira e última etapa do processo da recaída, fazendo agora o uso da droga propriamente dito, chegando assim, novamente ao desequilíbrio físico.

PORTANTO, PARA VOLTAR A BEBER OU SE DROGAR, EXISTE UM CAMINHO A SER PERCORRIDO E SINAIS PRÉVIOS E EVIDENTES DE QUE ISTO VAI ACONTECER.

Quem, no entanto, está atento a si mesmo, investindo em seu tratamento e recuperação, reconhece esses sinais e a chance de recair é mínima. E, se a pessoa ainda está aberta a ouvir o que a família, o profissional ou os companheiros de grupo estão percebendo, e às vezes até sinalizando e pontuando, mesmo que se vivencie uma queda emocional, isso não significa  necessariamente recair no químico. Antes de chegar a esta última etapa, é possível retomar todo o processo de recuperação, sem precisar se drogar.

Por isso, utiliza-se muito este lema:

“A RECAÍDA FAZ PARTE DA DOENÇA, MAS NÃO FAZ PARTE DA RECUPERAÇÃO”.

          Mas, se mesmo assim, não houver essa retomada a tempo, torna-se essencial entender e aceitar a recaída, não como derrota ou fracasso total, permitindo que ela o carregue para a ativa novamente, mas sim como um reforço ou uma nova possibilidade de acerto para o reinício de um novo processo de recuperação.

SEMPRE É TEMPO DE RETOMAR. ISTO, SE O DEPENDENTE QUER E DESEJA CONTINUAR BUSCANDO ACIMA DE TUDO O RESGATE DE SUA SOBRIEDADE E DE SUA VIDA.

CAIU? LEVANTE E ANDE!

Abra a mente e o coração e retome seu barco. Volte a navegar em busca de águas tranquilas e serenas.

Quem sabe este é o momento de você “pescar” um pouco mais de humildade, um pouco mais de sensatez, de sabedoria e de serenidade?

Manter-se preso a sentimentos negativos e com autopiedade é uma forma de posicionar-se como vítima do mundo. Esta postura só paralisa, diminuindo a cada dia sua força vital.

Por outro lado, pensamentos positivos e atitudes, pró-ativas iluminam a autoestima e consequentemente a sua retomada no tratamento e na sua recuperação.

NEM TUDO ESTÁ PERDIDO. SEMPRE HAVERÁ UMA LUZ PARA VOCÊ SEGUIR.

É como diz o grande e saudoso poeta e compositor Raul Seixas: “TENTE OUTRA VEZ!”.

Marília Teixeira Martins

 

 

 

 

 

 

 

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Olá! Sou Marília Teixeira Martins, psicóloga clínica há 36 anos. Atendo adolescentes e adultos em meu consultório em Belo Horizonte de forma presencial e, a convite da Plataforma da Psicologia Viva, realizo atendimento online, devidamente autorizado pelo Conselho Federal de Psicologia. Acredito que cada um de nós, em seu processo de crescimento e busca interior, é capaz de desenvolver todo o seu potencial na resolução de problemas e dificuldades que a vida nos apresenta. Assumir a responsabilidade por nossa própria evolução nos colocando como o primeiro e único responsável por nossas atitudes, escolhas, sentimentos e por nossa própria vida é trabalhoso, mas com certeza nos leva a uma compreensão maior e mais fiel de como nos relacionamos conosco e com os outros. Como profissional da área de saúde entendo que o meu papel e dever em relação às pessoas que me procuram é motivá-las e direcioná-las ao seu autoconhecimento e amadurecimento de forma responsável, incentivando-as a buscar o comprometimento com sua própria evolução e crescimento emocional, condição “sine qua non” para uma vida harmoniosa e serena. Durante longos anos trabalhei em Comunidades Terapêuticas abordando o difícil mal da humanidade: a dependência de álcool e outras drogas. Em consultório, trabalho com os próprios dependentes químicos (adictos) desde sua rendição e pedido de ajuda, passando por todo o processo efetivo de recuperação e pela constante sombra da recaída… Até sua libertação dos químicos. Como uma criança que nasce e passa por vários estágios até seu completo caminhar, o dependente químico que quer vencer alcança sua sobriedade e recuperação. Resgata a dignidade perdida em função de uma doença tão devastadora, deixando de ser o “escolhido”, abraçando com muita dignidade e garra sua liberdade em “escolher”. Conheço de perto a luta que enfrentam. Portanto, a todos que optaram por sua sobriedade e recuperação e àqueles que ainda não optaram, mas estão a caminho, recebam o meu profundo respeito e admiração. Atendo também familiares de dependentes químicos que costumam não saber lidar com a adicção de seu afeto e, por isso, apresentam comportamentos disfuncionais e adoecidos. Falar sobre este tema exige cautela. Por outro lado, tornou-se um desafio em minha vida. Costumo dizer que eu não o escolhi, o tema me escolheu. Mas, por que e para quê? Confesso que durante muito tempo busquei respostas para esta indagação pessoal e, por mais incrível que possa parecer, ainda não as encontrei. Resolvi então me entregar ao “chamado” e agir. Um desafio, um sonho, uma realidade. Através de minhas experiências profissionais publiquei um livro dirigido principalmente àqueles que buscam ou navegam em direção à libertação das drogas, reinventando suas histórias e resgatando suas próprias vidas. Escrevê-lo foi mais do que um simples ensaio. Foi um exercício poético de liberdade e um convite à reflexão e à ação. Escrevi ainda um segundo livro, ainda não publicado, devido às inúmeras atividades profissionais por mim abraçadas, mas que vocês terão a oportunidade de conhecê-las através deste blog. Quem sabe juntos conseguiremos alcançar aqueles que tanto precisam de ajuda? Além de atuar em diversos diagnósticos clínicos, dou supervisão clínica para psicólogos, auxiliando-os na condução de seus atendimentos. Ministro palestras em grupos de mútua-ajuda como Alcoólicos Anônimos (A.A.), Al-lanon (para familiares de dependentes químicos), em escolas de ensino fundamental e médio, trabalhando com os alunos principalmente a prevenção da doença. É um prazer recebê-los. Vocês são os meus convidados. Podem entrar, a casa é nossa! Marília Teixeira Martins Psicóloga Clínica

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