A HISTÓRIA DE “FRÔ” E DO SEU DOENTE AMÔ

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Estou em Cordisburgo, cidade interiorana de Minas Gerais. O significado do nome desta cidade vem de CORDIS, coração e BURGO, cidade. A cidade do coração. Do coração de muitas “Marias”, de muitos Josés”, de Dona Quita, Seu Tarcísio, Seu Berto e do grande escritor João Guimarães Rosa.

Debaixo de um caramanchão coberto de uma planta exótica de nome “sapatinho-de-judia”, oriunda da Índia, escrevo sobre Frô (nome fictício para preservar o seu anonimato), mulher regional, casada há muitos anos com Seu “Nhô” (nome fictício), dependente químico em recuperação há pouco mais de 6 meses.

Frô me conta um pouco de sua história de vida, de seu amor e de sua dor, se dirigindo a mim ora como menina, ora como mocinha ou “fia” e, de vez em quando, até se arriscando a me chamar de senhora.

* Observação:A parte inicial deste pequeno artigo foi escrita de acordo com o dialeto regional, ou seja, da maneira em que a pessoa fala.

AS PRIMEIRAS PALAVRAS DE FRÔ:

– Óia “fia”, vou te contá minha vida junto do meu “Nhô” porque guardo uma grande estima pela senhora. E quero começá dizendo que eu amo ele demais da conta, num sabe?

– Pois bem, a coisa que ele mais gostava de fazê na vida era bebê suas pinguinha, que comprava direto do fabricante. Bebia demais da conta, e nessa época eu nem brigava com ele procausa disso não! Ele gostava, uai… fazê o quê, né?

– Hoje, pra bem dizê, nossa vida é uma verdadeira maravilha, mas já foi muito sofrida. Atualmente eu e meu esposo trabalhamos aqui com o Dotô. Ele é muito bão com a gente, que só cê vendo! Deixa a gente morá ali no quartinho e a gente só precisa cuidá das coisa e da casa dele. E nóis fazemos isso bom grado! Ah, e tem mais: sou fichada e ele nunca atrasa nosso pagamento. Mas, já avisou que o “Nhô” precisa freqüentá as reunião de A.A. e continuá a fazê o tratamento que ele faz lá com o médico do hospital.  E graças a Deus e debaixo de muita reza, meu “Nhô” num bebe a um tempão. Tá aguentando firme!

E FRÔ CONTINUA:

– Meu pai bebia o mesmo tanto que ele, num sabe? E minha mãe cuidou dele direitim, igual eu cuido do meu espôso. Óia, minha vida, pra bem dizê é só cuidá dele. Eu amo ele demais da conta e quem ama cuida, num é mesmo?

– Quando minha mãe ainda vivia, ela falava que casamento que é casamento só dá certo se a mulher ficá com o marido pro que dé e vié. E que, se a gente não cuidá vem outra e cuida.Por isso, tem dia que só de pensá que meu “Nhô” pode me deixá, eu choro… às vezes, o dia inteirim, interim.

– Só que eu choro pra dentro e bem escondido que é pra ele num vê e nem ouví. Um mês desses pra trás, eu chorei pra dentro um tempão e sofri de uma dor tão doída que nem vi a luz do sol. Meu coração ficou numa amargura só! Foi num daqueles dias que ele bebeu demais da conta e ficou até “sem carreira certa”. Perdeu o caminho de casa e nunca mais chegava. Aí no final do dia eu fui atrás dos seus passos e achei o caminho de volta pra ele, num sabe? Olha mocinha, eu num costumo ter medo de muita coisa nessa vida não, mas o medo mais medroso que tenho é de perdê o meu “Nhô”. Minha vida é assim, acunchegada na dele.

– E agora, sem ele bebê, nossa vida vai melhorá… e muito! Eu amo ele demais da conta, sô!

* OBSERVAÇÃO: Frô, ao falar isso, abre um belo sorriso e mostra sua boca sem nenhum dente na parte superior.

Frô se levanta e depois de algum tempo volta com um pão de queijo quentinho e um delicioso cafezinho coado na hora.

*ESTE DEPOIMENTO FOI DEVIDAMENTE AUTORIZADO POR FRÔ PARA SER PUBLICADO.

E esta é a história de “Frô”, do Seu Nhô” e do sentimento que ela chama de amô, apesar da dor.

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

Frô, assim como milhares de codependentes é mais uma mulher que “ama demais” e não mora mais em si. Repete e segue à risca o que sua velha e falecida mãe fazia, falava e lhe ensinava. Distante de si, nem sequer enxerga a possibilidade de se cuidar, cuidar de suas roupas, de sua pele, de seus dentes, enfim, de sua vida. Seu maior medo é que o seu companheiro a rejeite. Viver pelo outro e para o outro é a única coisa que dá sentido a sua existência.

Frô pode ter muitos nomes, muitas idades e pode se chamar Maria ou José… Pode ser mulher, homem e viver em muitos bairros, em muitas cidades, do interior ou capital e até em outros países. Pode ter uma boa situação social, financeira ou então, ter uma vida desfavorável em todos estes aspectos.

É MAIS UMA ANÔNIMA, VÍTIMA DA CODEPENDÊNCIA E DA DEPENDÊNCIA QUÍMICA DENTRO DE CASA.

É mais uma “Maria” de muitas “Marias” que conheço pelo mundo afora, vivendo dentro de uma “bolha”, de uma “trava” ou atadura emocional e entregando suas vidas nas mãos do outro, experimentando diariamente “doses” e “doses” de baixa autoestima e desamor.

Possivelmente sofreram algum tipo de rejeição e abandono e hoje repetem a mesma história e a mesma “música” de uma nota só. Por isso, buscam no outro a felicidade que não encontram dentro de si. Querem apenas serem reconhecidas, aceitas e amadas. São codependentes e não gostam, do seu “cheiro” e nem de sua “cor”. Sofrem por amor e não reconhecem seu valor.

Mulheres e homens que “amam demais” correm um sério risco de se tornarem, ao longo da vida, pessoas amargas distantes da luz, vivendo simplesmente como sombras do outro, perdendo a fonte inesgotável da alegria, do prazer e do viver.

E é debaixo do caramanchão, coberto de sapatinho-de-judia, na cidade de Cordirburgo, a cidade do coração, é que eu reflito: se o amor é nobre e temos o privilegio de senti-lo, porque não experimentá-lo com toda a beleza e a grandeza que nos é possível viver? Para fechar este artigo, recorro-me ao jeito de falar de Frô:

– “QUEM AMA DEMAIS DA CONTA, SÔ, NÃO AMA, “DESAMA” (palavra inventada por mim), principalmente a si mesmo.

* Este artigo foi publicado na Revista Anônimos Digital com o título “Amar demais: Amor ou desamor?” – Ano 1- nº 5 –  Editora Libélula

“Grupo de Alcoólicos Anônimos “VIVENDO EM PAZ” em Cordisburgo: “O AA da nossa cidade, que há anos se reúne em sua sede na parte inferior da Casa Paroquial e que se localizada na Praça da Matriz, está atendendo os participantes nas quartas-feiras, no horário das 19:30 às 21:30 horas e ainda, aos domingos das 10:00 às 12:00 horas.”

“E é de bom grado lembrar que: “Se o alcoolismo é um problema em sua vida, o AA pode ser a solução”.

https://www.cordisnoticias.com.br/2016/10/grupo-alcoolicos-anonimos-vivendo-em.html

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Olá! Sou Marília Teixeira Martins, psicóloga clínica há 36 anos. Atendo adolescentes e adultos em meu consultório em Belo Horizonte de forma presencial e, a convite da Plataforma da Psicologia Viva, realizo atendimento online, devidamente autorizado pelo Conselho Federal de Psicologia. Acredito que cada um de nós, em seu processo de crescimento e busca interior, é capaz de desenvolver todo o seu potencial na resolução de problemas e dificuldades que a vida nos apresenta. Assumir a responsabilidade por nossa própria evolução nos colocando como o primeiro e único responsável por nossas atitudes, escolhas, sentimentos e por nossa própria vida é trabalhoso, mas com certeza nos leva a uma compreensão maior e mais fiel de como nos relacionamos conosco e com os outros. Como profissional da área de saúde entendo que o meu papel e dever em relação às pessoas que me procuram é motivá-las e direcioná-las ao seu autoconhecimento e amadurecimento de forma responsável, incentivando-as a buscar o comprometimento com sua própria evolução e crescimento emocional, condição “sine qua non” para uma vida harmoniosa e serena. Durante longos anos trabalhei em Comunidades Terapêuticas abordando o difícil mal da humanidade: a dependência de álcool e outras drogas. Em consultório, trabalho com os próprios dependentes químicos (adictos) desde sua rendição e pedido de ajuda, passando por todo o processo efetivo de recuperação e pela constante sombra da recaída… Até sua libertação dos químicos. Como uma criança que nasce e passa por vários estágios até seu completo caminhar, o dependente químico que quer vencer alcança sua sobriedade e recuperação. Resgata a dignidade perdida em função de uma doença tão devastadora, deixando de ser o “escolhido”, abraçando com muita dignidade e garra sua liberdade em “escolher”. Conheço de perto a luta que enfrentam. Portanto, a todos que optaram por sua sobriedade e recuperação e àqueles que ainda não optaram, mas estão a caminho, recebam o meu profundo respeito e admiração. Atendo também familiares de dependentes químicos que costumam não saber lidar com a adicção de seu afeto e, por isso, apresentam comportamentos disfuncionais e adoecidos. Falar sobre este tema exige cautela. Por outro lado, tornou-se um desafio em minha vida. Costumo dizer que eu não o escolhi, o tema me escolheu. Mas, por que e para quê? Confesso que durante muito tempo busquei respostas para esta indagação pessoal e, por mais incrível que possa parecer, ainda não as encontrei. Resolvi então me entregar ao “chamado” e agir. Um desafio, um sonho, uma realidade. Através de minhas experiências profissionais publiquei um livro dirigido principalmente àqueles que buscam ou navegam em direção à libertação das drogas, reinventando suas histórias e resgatando suas próprias vidas. Escrevê-lo foi mais do que um simples ensaio. Foi um exercício poético de liberdade e um convite à reflexão e à ação. Escrevi ainda um segundo livro, ainda não publicado, devido às inúmeras atividades profissionais por mim abraçadas, mas que vocês terão a oportunidade de conhecê-las através deste blog. Quem sabe juntos conseguiremos alcançar aqueles que tanto precisam de ajuda? Além de atuar em diversos diagnósticos clínicos, dou supervisão clínica para psicólogos, auxiliando-os na condução de seus atendimentos. Ministro palestras em grupos de mútua-ajuda como Alcoólicos Anônimos (A.A.), Al-lanon (para familiares de dependentes químicos), em escolas de ensino fundamental e médio, trabalhando com os alunos principalmente a prevenção da doença. É um prazer recebê-los. Vocês são os meus convidados. Podem entrar, a casa é nossa! Marília Teixeira Martins Psicóloga Clínica

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