OS JOGOS DE “FAZ DE CONTA”

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Existem pessoas que, por sentirem uma exagerada necessidade de serem amadas, reconhecidas e valorizadas pelos outros, costumam passar uma imagem de si mesmas que nem sempre correspondem ao que realmente são. E a busca desta sensação é tão vital para elas que acabam por transformar suas vidas em um verdadeiro teatro, onde palco e cenário são seus próprios lares, ambientes sociais e profissionais.

Estabelecem relacionamentos maquiados e alusivos, transitando de forma sutil por inúmeros jogos, os quais denomino aqui, de “Jogos de Faz de Conta”.

Um exemplo bem característico deste tipo de comportamento é o daquele homem extremamente educado e gentil, que se apresenta na maioria das vezes com um sorriso no rosto, tranquilo e prudente, onde tudo e todos lhe agradam e, definitivamente, não discorda e nem discute com ninguém.

No entanto, em seus relacionamentos sociais e interpessoais, não se expõe e não se interage de forma límpida.  Evita falar de si e de seus problemas e não costuma ser inoportuno e nem deselegante.  Muito pelo contrário, é amável e virtuoso em quase todos os momentos e, tem como regra não ameaçar ou agredir direta e/ou abertamente alguém.  Ele não entra em confrontos emocionais.

E, com este seu jeito próprio de ser, não dá espaço para a sua transparência emocional, bem como para a intimidade. Não corre risco, pois não “permite” que os outros o conheçam como realmente é.

Quando casado e pai, quer somente “sossego”.  E de fato ele se coloca de forma isolada, lendo um jornal, assistindo algum filme ou se entregando fielmente à bebida de sua preferência.

A disciplina dos filhos passa ser da responsabilidade exclusiva da mãe, e dizer “Sim” depois da mãe ter dito “Não” é comum e usual.

Costuma não brigar e nem “ralhar” com os filhos, nem mesmo quando estes “aprontam alguma”.  Muito pelo contrário, ele os motiva dizendo: “isso vai passar” ou então: “cuidado com sua mãe, ela ficará irada com você”! Desta forma, além de retirar a autoridade materna, que ele mesmo oportunamente delegou, ainda a aponta como a “algoz”, enquanto se mostra como “o bonzinho”.

Para os filhos, ele é “o máximo”, mas às vezes não conseguem esconder o desapontamento que sentem quando este mesmo pai confunde seus nomes ou não sabe exatamente a data de seus aniversários e suas idades; afinal tem também como característica, ser “desligado” e pacífico.

“Deixa a vida o levar”, seguindo o curso da “onda” e seu maior medo é perder o controle e expressar sua raiva, pois não sabe dosá-la e teme as possíveis consequências, caso venha manifestá-la.  Não aprendeu a lidar com os seus sentimentos e, sim, controlá-los, principalmente os agressivos.

Mas, se por um lado é um pai “bonzinho”, por outro, sua inexpressividade dificulta aos filhos uma identificação adequada com a figura masculina, principalmente se estes forem “meninos”.

Outro exemplo também muito comum e característico deste comportamento é o daquela mulher extremamente solidária, disponível para tudo e todos. Ela é um encanto de pessoa. Sua casa impecável, mãe exemplar, esposa dedicada e amiga para todas as horas. Compreensiva e ótima confidente, frequentemente se dispõe a ouvir extensos relatos de infortúnios alheios, sem emitir uma única opinião. Raramente gasta dinheiro consigo mesma, preferindo agradar marido, filhos e amigas com lembranças e presentes “surpresas”.

Faz tudo sem reclamar, mesmo cansada ou doente. E o melhor: não cobra absolutamente nada. Pelo menos de forma aparente e direta.  Mas, vez por outra entra em alguma crise. Às vezes chora, às vezes grita ou simplesmente se contém num angustiante e interminável silêncio. E é muito comum nestes momentos causar em todos uma sensação de culpa e de constante débito para com ela.

Infelizmente ela não aprendeu a dizer “Não” e/ou “Eu quero”.

Da mesma forma, existem crianças que, para sua sobrevivência emocional, necessitam e buscam todo o tempo e de forma exacerbada sentirem–se amadas, e acima de tudo super admiradas pelos adultos.

E para alcançarem tal sensação costumam utilizar todas as suas habilidades de maneira charmosa e agradável, mas nem sempre simpática, principalmente aos olhos de outras crianças da sua idade.

São educadas, polidas, em qualquer ambiente que frequentam, estando sempre prontas para ajudar. Seus comportamentos são exemplares e raramente problemas com a disciplina.

Contudo, estão sempre representando e buscando alianças apenas com os adultos.  Não é à toa que sofrem enormes dificuldades em participar de grupos de sua faixa etária, pois, se mostram superiores a maior parte do tempo. Na verdade, apresentam-se como adultos em miniatura, sendo vistos muitas vezes como “puxa-sacos” ou “dedos-duros”.

Se por um lado os três comportamentos acima descritos apresentam-se impecáveis, por outro lado são utilizados, inconscientemente, de forma sutil manipulando pessoas e situações.

Posicionando-se de forma “impessoal”, sentem-se “ilusoriamente” seguros para continuarem “sobrevivendo” emocionalmente e “tocando” suas vidas.

Possivelmente estas pessoas cresceram em ambientes moralistas, onde eram vistos, mas não ouvidos. E quando expressavam e manifestavam algum tipo de raiva e agressividade, eram imediatamente punidas. Não lhes foi permitido nem ao menos argumentar, fruto de uma típica educação repressiva. Por isso se fizeram e se transformaram em pessoas aparentemente “dóceis”, carregando, no entanto mensagens duplas, ambíguas e indiretas.

Texto: Marília Teixeira Martins

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Olá! Sou Marília Teixeira Martins, psicóloga clínica há 36 anos. Atendo adolescentes e adultos em meu consultório em Belo Horizonte de forma presencial e, a convite da Plataforma da Psicologia Viva, realizo atendimento online, devidamente autorizado pelo Conselho Federal de Psicologia. Acredito que cada um de nós, em seu processo de crescimento e busca interior, é capaz de desenvolver todo o seu potencial na resolução de problemas e dificuldades que a vida nos apresenta. Assumir a responsabilidade por nossa própria evolução nos colocando como o primeiro e único responsável por nossas atitudes, escolhas, sentimentos e por nossa própria vida é trabalhoso, mas com certeza nos leva a uma compreensão maior e mais fiel de como nos relacionamos conosco e com os outros. Como profissional da área de saúde entendo que o meu papel e dever em relação às pessoas que me procuram é motivá-las e direcioná-las ao seu autoconhecimento e amadurecimento de forma responsável, incentivando-as a buscar o comprometimento com sua própria evolução e crescimento emocional, condição “sine qua non” para uma vida harmoniosa e serena. Durante longos anos trabalhei em Comunidades Terapêuticas abordando o difícil mal da humanidade: a dependência de álcool e outras drogas. Em consultório, trabalho com os próprios dependentes químicos (adictos) desde sua rendição e pedido de ajuda, passando por todo o processo efetivo de recuperação e pela constante sombra da recaída… Até sua libertação dos químicos. Como uma criança que nasce e passa por vários estágios até seu completo caminhar, o dependente químico que quer vencer alcança sua sobriedade e recuperação. Resgata a dignidade perdida em função de uma doença tão devastadora, deixando de ser o “escolhido”, abraçando com muita dignidade e garra sua liberdade em “escolher”. Conheço de perto a luta que enfrentam. Portanto, a todos que optaram por sua sobriedade e recuperação e àqueles que ainda não optaram, mas estão a caminho, recebam o meu profundo respeito e admiração. Atendo também familiares de dependentes químicos que costumam não saber lidar com a adicção de seu afeto e, por isso, apresentam comportamentos disfuncionais e adoecidos. Falar sobre este tema exige cautela. Por outro lado, tornou-se um desafio em minha vida. Costumo dizer que eu não o escolhi, o tema me escolheu. Mas, por que e para quê? Confesso que durante muito tempo busquei respostas para esta indagação pessoal e, por mais incrível que possa parecer, ainda não as encontrei. Resolvi então me entregar ao “chamado” e agir. Um desafio, um sonho, uma realidade. Através de minhas experiências profissionais publiquei um livro dirigido principalmente àqueles que buscam ou navegam em direção à libertação das drogas, reinventando suas histórias e resgatando suas próprias vidas. Escrevê-lo foi mais do que um simples ensaio. Foi um exercício poético de liberdade e um convite à reflexão e à ação. Escrevi ainda um segundo livro, ainda não publicado, devido às inúmeras atividades profissionais por mim abraçadas, mas que vocês terão a oportunidade de conhecê-las através deste blog. Quem sabe juntos conseguiremos alcançar aqueles que tanto precisam de ajuda? Além de atuar em diversos diagnósticos clínicos, dou supervisão clínica para psicólogos, auxiliando-os na condução de seus atendimentos. Ministro palestras em grupos de mútua-ajuda como Alcoólicos Anônimos (A.A.), Al-lanon (para familiares de dependentes químicos), em escolas de ensino fundamental e médio, trabalhando com os alunos principalmente a prevenção da doença. É um prazer recebê-los. Vocês são os meus convidados. Podem entrar, a casa é nossa! Marília Teixeira Martins Psicóloga Clínica

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