A DEPENDÊNCIA EMOCIONAL OU CODEPENDÊNCIA

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Couple silhouette breaking up a relation

Sabe-se que as pessoas que têm uma proximidade maior com os dependentes químicos, sejam familiares ou amigos, correm um sério risco de também se tornarem adoecidos com o processo ativo da doença, mesmo sem fazerem uso de substâncias químicas que alterem o seu humor. São os chamados dependentes emocionais ou codependentes.

É comum a dependência química e todas as consequências que esta traz se “encarregar” de esconder alguns sintomas doentios dentro da estrutura familiar, que já existiam de forma independente. E enquanto a dependência química for focada como único problema da família, seus membros acabam por ficarem privados de entrar em contato consigo mesmos e com suas próprias dificuldades. Vivem e respiram a doença ativa do dependente, esquecendo-se na maioria das vezes de sua própria vida.

Os codependentes, muitas vezes, criam inúmeras expectativas em relação ao outro, esperando receber o que ele não pode e nem consegue dar. É como se esperasse colher limões em uma macieira. Assim que percebe que não obteve o retorno esperado, vivencia uma intensa e dolorosa frustração que, se não elaborada, possivelmente transforma-se em fracasso.
Por isso, saber lidar bem com as frustrações é um processo importante e necessário em suas recuperações.

Macieira ou Limoeiro? Eis a questão.

Não é raro acontecer, por exemplo, separações de casais ou uma desorganização familiar após o dependente entrar no processo de recuperação.

Mas, é importante dizer que ninguém é codependente porque quer ou porque gosta e sim porque em algum momento de sua vida “precisou” ser para “sobreviver” emocionalmente, em defesa a uma série de situações, fragilidades, angústias e medos.

Normalmente a codependência se instala em algum momento da história de vida e tem sua origem junto à família núcleo. E a pessoa não tem consciência da magnitude e força que exerce sobre os seus relacionamentos atuais e sobre os seus atos.

É uma tentativa inconsciente de reviver e aliviar situações e feridas passadas mal resolvidas e na maioria das vezes “desconhecidas”.

Diferentemente do que aparentam, os codependentes são extremamente frágeis e inseguros, com baixa autoestima e sentem um profundo medo da rejeição. Apresentam na maioria das vezes uma competência “invejável” e grande habilidade racional, chegando mesmo a surpreender todos com sua capacidade em resolver problemas e situações conflituosas externas a si, de forma hábil e perspicaz.

Mas, olhar para si significa correr o risco de encontrar um enorme “vazio” e uma intensa dor e fragilidade emocional. Por isso, entregam e responsabilizam o outro por sua felicidade e/ou sofrimento.  Enfim, constroem sua vida de maneira simbiótica em torno da vida do outro.

A POSTURA TERAPÊUTICA

Em função disso, cabe a nós profissionais da área evitar julgamentos e exercitar, acima de tudo, a compreensão e respeito a essas dificuldades e fragilidades que, com certeza, acompanham e participam da vida de seu paciente há longos e longos anos.

Sendo assim, as sessões iniciais são essencialmente de acolhimento, onde se focaliza e enfatiza sobretudo o vínculo terapêutico.

No momento em que pede ajuda, o codependente costuma se colocar, até mesmo sem perceber, numa posição “infantilizada” e, portanto, bastante regredida, precisando ser ouvido e aceito como é para aprender a se ouvir e a se aceitar, com luzes e sombras, defeitos e qualidades.

E dentro deste contexto existem inúmeras formas de atuação e mensagens que podemos lançar mão com o objetivo de sensibilizar o codependente para a dinâmica e movimento que vêm fazendo em relação à sua vida na vida do outro.

O ouvir e o olhar atento são primordiais, como também uma postura e linguagem corporal adequadas. É comum nos inclinarmos em direção ao codependente todas as vezes que ele fala de si, e recuar nossa postura quando ele focaliza o outro, mostrando com esta atitude que a essência está em sua história.

Para isso, é imprescindível que o profissional responsável seja sensível o suficiente para que consiga traduzir de forma não ameaçadora este movimento e esta dinâmica individual, procurando caminhar ao seu lado em busca da conquista de sua liberdade de escolha.

São atitudes e posturas como esta ao longo do tratamento, que convidam o codependente a aproximar e a se colocar no foco de sua vida.

Existe um exercício terapêutico bastante simples que exemplifica e registra bem o processo de “distanciamento de si mesmo” e a aproximação necessária para que o resgate de sua autoestima e a retomada de posse de sua própria vida..

Sugere-se ao familiar codependente que fique exageradamente atento às suas necessidades básicas, como fome, sede, sono, frio, calor, como também em suas necessidades fisiológicas. E assim que as identificar, buscar o alívio imediato, ou seja, satisfazendo-as no momento exato em que elas se manifestem.

Apesar de parecer um exercício “bobo” e sem fundamento, muitos chegam à consulta seguinte ao exercício proposto, impressionados ao perceberem que nem suas necessidades básicas são por eles adequadamente satisfeitas e supridas, e que não se dão a atenção devida e merecida. Na verdade, eles literalmente se abandonam.

Pontua-se então a urgência da incorporação deste hábito em suas vidas e a iniciação de um processo de dedicação e investimento em si mesmos.

Desta forma, acredita-se no restabelecimento de uma maior intimidade consigo mesmos, reunindo forças suficientes para zelar por suas necessidades de uma forma geral, como também por seus sentimentos, desconfortos, dores e angústias, sem se sentirem tão frágeis e ameaçados como antes.

Outro exercício também muito interessante que se utiliza quando se trabalha com toda a família em grupo é a dinâmica das tarefas.

Tal dinâmica consiste no primeiro momento em que cada um escreva em um pedaço de papel uma tarefa, para que outra pessoa do grupo a realize. Tão logo todos façam este registro, informa-se que cada um terá que realizar a própria tarefa que indicou para o outro.

O espanto é unânime.

Lembro-me de certa vez que uma mãe codependente pediu para que seu filho adicto lesse em voz alta e diante de todo o grupo, dez vezes o primeiro dos 12 Passos de Alcoólicos Anônimos.  Para sua surpresa, ela mesma teve que ler por dez vezes o Primeiro Passo dos 12 integrantes da programação. E, por sugestão do próprio grupo, leu o 1º passo relacionado e elaborado especificamente para os familiares e codependentes.

A reflexão feita por todos, após este acontecimento  foi extremamente terapêutica, levando cada um a voltar para si e perceber a grande responsabilidade por sua própria recuperação.

Enfim, qualquer exercício que focalize o próprio codependente, transportando-o para próximo de si, é eficaz. Desde um simples relaxamento e técnicas de imaginação criativa, que o leva a sensações corporais e emocionais, até exercícios mais profundos e mais elaborados, como a regressão consciente, seja através de um desenho, de uma escrita, de fotos, imagens ou através de “viagens de fantasia”. Todos com acompanhamento do profissional responsável.

O EU E O OUTRO E O NÓS

Quando um avião vai decolar ou pousar, ouvimos algumas recomendações das comissárias de bordo. Uma delas é que “em caso de descompressão, máscaras de oxigênio cairão à nossa frente”, e caso isso ocorra, é necessário colocá-las primeiro em nós mesmos, antes de tentarmos ajudar quem estiver sob nossa responsabilidade (no caso de crianças ou idosos).

Essa mensagem sempre me chamou a atenção e praticamente me obrigou, ao longo da minha prática clínica, a fazer uma reflexão sobre ela:

De fato, ninguém pode ajudar o outro a respirar, se primeiramente não respirar adequadamente. É pr

eciso se atender e se cuidar primeiro, antes de cuidar do outro. Caso contrário, ambos podem ser seriamente prejudicados.

O relacionamento que se estabelece com o outro é conseqüência direta do relacionamento que se estabelece consigo mesmo e, normalmente, o outro nos trata como nos tratamos.

Por isso torna-se imprescindível estar atento a si, cuidando-se em todos os aspectos já citados, para que se consiga estabelecer um relacionamento de qualidade e, acima de tudo, funcional.

Assumir a responsabilidade por nossa própria evolução, nos colocando como o primeiro e único responsável por nossas atitudes, escolhas, sentimentos e por nossa própria vida, é trabalhoso mas, com certeza, nos leva a uma compreensão maior e mais fiel de como nos relacionamos conosco mesmos e com os outros.


O OLHAR PARA SI

A partir do momento em que o codependente olha para si e para suas necessidades, aceitando e respeitando sua história de vida, seu passado, suas limitações e desafios, inicia-se o tão esperado processo de mudança e recuperação, passando a agir mais, ao invés reagir às circunstâncias e em relação ao outro.

Sendo mais ousado e se dispondo a correr riscos, entra em contato com seu mundo interno e consegue transformar um relacionamento até então disfuncional, onde necessita e se “alimenta” da vida do outro, em um relacionamento saudável, onde as partes envolvidas são responsáveis por si e se integram de forma adequada. Desta forma, o codependente desenvolve a capacidade de olhar para si sem tanto medo, de se ouvir, de se respeitar, de se acolher nas mínimas atividades diárias, como cuidar de seu próprio corpo e de seu bem estar. Tomando posse de si, começa a acreditar que é o único responsável por tudo o que é seu, desde pensamentos e idéias, sentimentos, palavras e opiniões, fantasias e sonhos, esperanças e medos, erros e acertos, conquistas e derrotas, se amando, se respeitando e trabalhando, acima de tudo, a favor de seus próprios interesses e felicidade.

Responsabiliza-se por sua própria vida, conferindo ao outro o mesmo direito em fazê-lo, aceitando agir apenas no possível e entregando a uma instância superior o impossível. Entende que olhar e cuidar de si são as melhores alternativas para quem quer se relacionar de forma serena e sábia consigo e com o outro. Desta forma melhora consideravelmente sua autoestima alcançando enfim sua libertação.

Agora sim podemos falar em movimentos e mudanças,  Agora sim podemos falar na construção de relacionamentos saudáveis.

Marília Teixeira Martins 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Olá! Sou Marília Teixeira Martins, psicóloga clínica há 36 anos. Atendo adolescentes e adultos em meu consultório em Belo Horizonte de forma presencial e, a convite da Plataforma da Psicologia Viva, realizo atendimento online, devidamente autorizado pelo Conselho Federal de Psicologia. Acredito que cada um de nós, em seu processo de crescimento e busca interior, é capaz de desenvolver todo o seu potencial na resolução de problemas e dificuldades que a vida nos apresenta. Assumir a responsabilidade por nossa própria evolução nos colocando como o primeiro e único responsável por nossas atitudes, escolhas, sentimentos e por nossa própria vida é trabalhoso, mas com certeza nos leva a uma compreensão maior e mais fiel de como nos relacionamos conosco e com os outros. Como profissional da área de saúde entendo que o meu papel e dever em relação às pessoas que me procuram é motivá-las e direcioná-las ao seu autoconhecimento e amadurecimento de forma responsável, incentivando-as a buscar o comprometimento com sua própria evolução e crescimento emocional, condição “sine qua non” para uma vida harmoniosa e serena. Durante longos anos trabalhei em Comunidades Terapêuticas abordando o difícil mal da humanidade: a dependência de álcool e outras drogas. Em consultório, trabalho com os próprios dependentes químicos (adictos) desde sua rendição e pedido de ajuda, passando por todo o processo efetivo de recuperação e pela constante sombra da recaída… Até sua libertação dos químicos. Como uma criança que nasce e passa por vários estágios até seu completo caminhar, o dependente químico que quer vencer alcança sua sobriedade e recuperação. Resgata a dignidade perdida em função de uma doença tão devastadora, deixando de ser o “escolhido”, abraçando com muita dignidade e garra sua liberdade em “escolher”. Conheço de perto a luta que enfrentam. Portanto, a todos que optaram por sua sobriedade e recuperação e àqueles que ainda não optaram, mas estão a caminho, recebam o meu profundo respeito e admiração. Atendo também familiares de dependentes químicos que costumam não saber lidar com a adicção de seu afeto e, por isso, apresentam comportamentos disfuncionais e adoecidos. Falar sobre este tema exige cautela. Por outro lado, tornou-se um desafio em minha vida. Costumo dizer que eu não o escolhi, o tema me escolheu. Mas, por que e para quê? Confesso que durante muito tempo busquei respostas para esta indagação pessoal e, por mais incrível que possa parecer, ainda não as encontrei. Resolvi então me entregar ao “chamado” e agir. Um desafio, um sonho, uma realidade. Através de minhas experiências profissionais publiquei um livro dirigido principalmente àqueles que buscam ou navegam em direção à libertação das drogas, reinventando suas histórias e resgatando suas próprias vidas. Escrevê-lo foi mais do que um simples ensaio. Foi um exercício poético de liberdade e um convite à reflexão e à ação. Escrevi ainda um segundo livro, ainda não publicado, devido às inúmeras atividades profissionais por mim abraçadas, mas que vocês terão a oportunidade de conhecê-las através deste blog. Quem sabe juntos conseguiremos alcançar aqueles que tanto precisam de ajuda? Além de atuar em diversos diagnósticos clínicos, dou supervisão clínica para psicólogos, auxiliando-os na condução de seus atendimentos. Ministro palestras em grupos de mútua-ajuda como Alcoólicos Anônimos (A.A.), Al-lanon (para familiares de dependentes químicos), em escolas de ensino fundamental e médio, trabalhando com os alunos principalmente a prevenção da doença. É um prazer recebê-los. Vocês são os meus convidados. Podem entrar, a casa é nossa! Marília Teixeira Martins Psicóloga Clínica

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